As mulheres portuguesas fascinaram escritoras. Durante séculos, testemunhas do passado deixaram-nos uma perceção radiante dos Lisboeta. Estes cavalheiros ansiavam conhecê-los, mas ficaram espantados com os seus hábitos e costumes. As mulheres de Lisboa permaneceram trancadas nos palácios, deixando-se admirar das varandas. Para se aproximarem deles, os rapazes encontravam-nos na missa, rabiscando uma nota doce subtilmente transmitida entre dois bancos da igreja e duas Ave Maria.
Era preciso ser convidado pelos grandes homens do Reino para admirar estas damas incrivelmente exóticas. Tinham um andar voluptuoso que os tornava atraentes; Sentados nos calcanhares, preferiam tapetes orientais ao dourado rococó dos sofás. Este aspeto mouro era uma reminiscência do passado árabe de Lisboa, cujo legado se espalhou na língua e nas tradições.
Esta ideia de que Portugal é um país de homens machistas não é verdadeira. Os portugueses adoravam as mulheres! Em 1777, o francês Pierre Dezoteux notou que um homem podia ajoelhar-se perante a esposa de um fidalgo para elogiar a senhora ou simplesmente ouvi-la dar-lhe ordens.
O inglês Richard Twiss foi um dos primeiros turistas a chegar a Lisboa. Filho de um aristocrata, fez a sua “grande viagem” em 1773. Para ele, as mulheres portuguesas eram as mais vivas do mundo, passando o tempo a rir, cantar, dançar e conversar apaixonadamente. Naquela altura, imagina-se as ruas escuras de uma Lisboa em ruínas, animadas por um fogo popular de onde começa uma melodia brasileira. Durante as noites de verão, há um ambiente indecente onde a fofa, esta dança despreocupada e sugestiva, conquista o coração dos homens e desperta a admiração das mulheres.
Ainda hoje, o Fado é herdeiro destas mulheres do povo que forjou a identidade de um estilo, de um modo de vida, de uma transcendência através da música. Eles olhavam para ti com os seus olhos negros profundos enquanto empunhava a guitarra, e com a sua voz suave e agradável, atraíam os trabalhadores para as tabernas no dia de pagamento.
Vemo-la nas capas de A vida Portuguesa, ouvimo-la no intemporal fado Lisboa menina e moça de Carlos do Carmo… Mas quem mais hoje presta homenagem aos Varina ? Adornado com joias, este comerciante de peixe teve uma vida difícil. Enquanto os homens iam para o mar, as varinas vagueavam pelos cais e praças para vender a captura da manhã. Carregavam o peixe numa cesta plana e carregavam-no na cabeça com graça e aperto.
A andar descalços pelas ruas, onde a calçada não era suave, gritavam com voz aguda sobre o quão fresco era o peixe. Todos tinham este conjunto: uma saia curta, um lenço colorido sobre o peito e um chapéu redondo de feltro preto. Marginalizadas, as varinas não careciam de carácter. Da avó à menina, estavam todos na rua, este comércio era um assunto de família! Tinham o seu próprio dialeto e os homens nunca tinham uma palavra a dizer. De boca forte, as varinas tinham uma resposta para si próprias e acertavam em qualquer comentário impertinente. Cada bravura mal colocada era assim recompensada com uma palmada bem medida. Esta brutalidade era uma virtude para eles, o seu trabalho não era gentil, tinham de ser respeitados.
As mulheres portuguesas ainda vivem numa sociedade patriarcal... Mas isto é apenas uma fachada. Sempre tiveram a última palavra nas decisões familiares. O importante não é convencer os homens, mas fazê-los acreditar que são eles que tomam a decisão.
Ainda existe o problema da desigualdade salarial, mas é bom ver que hoje a mulher portuguesa é uma mulher libertada. Quer se chamem Márcia ou Andréa, são os empreendedores de hoje!